O relógio toca
A onda jovem está passando e ainda não decidimos
questões fundamentais. Onda jovem é como demógrafos e especialistas em
população chamam o momento em que a faixa etária que predomina está na
juventude. Entre 2000 e 2010, diminuiu em números absolutos o total de
brasileiros com até 19 anos. Abaixo de 14 anos, há cinco milhões a menos.
- Até 2000, o Brasil tinha 50 milhões de pessoas
de até 14 anos, agora, são 45 milhões - conta Eduardo Nunes, presidente do
IBGE.
O censo, divulgado na semana passada, é resultado
de uma extraordinária operação logística em que, segundo Nunes, o tempo voou,
mas foi possível recensear sessenta e sete milhões de domicílios. Primeiro, foi
preciso contratar 30 mil supervisores, que cadastraram todos os domicílios em área
urbana sem entrar nas casas. Depois do cadastro feito, 191 mil recenseadores
visitaram quase todas as residências. Muita gente reclama que sua casa não foi
visitada. Eu aproveitei a conversa com ele na Globonews para perguntar sobre
isso. Ele admite que em quase 900 mil não foi possível entrevistar ninguém e
foi feita uma simulação. Nas outras residências só uma pessoa foi entrevistada.
Ele mesmo não respondeu ao censo, porque estava no IBGE na hora da visita.
Agora começa o trabalho dos pesquisadores que vão
se debruçar sobre esses dados. Como disse no programa de ontem a demógrafa Ana
Amélia Camarano, do Ipea, citando uma colega neo-zelandesa:
- O IBGE contou a população, agora é a hora da
sociedade e o Estado fazerem com que essas pessoas contem.
Os dados confirmaram que os brasileiros estão
vivendo mais, e tem nascido cada vez menos crianças. Por isso, houve uma queda
percentual de todas as faixas etárias até 25 anos. E até em números absolutos.
O país tem hoje menos pessoas abaixo de 19 anos do que tinha na última
contagem. Em compensação, dobrou em números absolutos o total de pessoas com
mais de 60 anos, em 20 anos.
Os dados permitem projeções. E elas podem ser bem
diferentes dependendo das premissas. O IBGE calcula que o número de brasileiros
vai continuar aumentando até 2050 e, no auge, o Brasil terá de 240 milhões a
250 milhões. Já Ana Amélia, do Ipea, calcula que esse auge vai acontecer entre
2030 e 2035, e que o total de brasileiros não deve passar de 207 milhões.
De qualquer maneira, os pesquisadores vão agora
analisar todos esses dados nos trabalhos de investigação a respeito do que eles
informam sobre as políticas públicas. O passado já se sabe.
- O auge do crescimento populacional foi nas
décadas de 50 e 60. Essas crianças que nasceram, quando a taxa era alta,
cresceram e tiveram seus filhos, portanto, a taxa de crescimento ficou alta por
algum tempo. A geração que nasceu naquela época chegou ao mercado de trabalho
quando o Brasil crescia muito e criava oportunidades de absorção da mão de obra;
o que não se deu com a segunda geração que entrava no mercado nos anos 80 e 90.
Essa primeira geração agora está envelhecendo. A proporção de pessoas com mais
de 60 anos, mais do que dobrou em 20 anos, ainda que proporcionalmente seja
pequena - disse Eduardo Nunes:
- A geração que nasceu quando a taxa de
fecundidade era elevada agora está envelhecendo e chegando aos 60 a 65 anos. E se beneficiou
da redução da mortalidade em todas as idades, é beneficiária do avanço
tecnológico e da ciência médica. Uma família hoje tem mais gerações convivendo,
mas tem menos filhos e menos sobrinhos. No futuro, teremos uma população mais
envelhecida porque está nascendo menos gente, mas está sobrevivendo mais gente
lá na ponta pelo aumento da expectativa de vida. Teremos uma população como o
Japão de hoje: um superenvelhecimento - completou Ana Amélia.
É hora, eles avisam, de fazer o que não foi
feito. O tempo está ficando mais curto, está passando nosso melhor momento. A
tarefa mais urgente é a educação. O Brasil, como se sabe, tem baixo nível de
escolaridade e a recuperação está sendo mais lenta do que seria prudente. De 10 a 14 anos, o Brasil tem
quase 4% de analfabetismo. No Norte e Nordeste, chega a 7%. Se estamos
encolhendo nessa faixa etária, mais do que nunca é fundamental educar os
brasileiros jovens.
Eduardo Nunes contou uma notícia animadora. Ele
disse que foi fácil contratar os 191 mil recenseadores. Que muitos trabalharam
para ajudar a pagar seus estudos universitários. Num país que as empresas estão
reclamando de apagão de talentos, ele disse que teve a experiência contrária:
- Eu tenho dúvidas sobre esse apagão, por
experiência própria, porque contratamos 191 mil recenseadores e mais 30 mil
supervisores. Acho que a falta de mão de obra é mais uma questão local do que
nacional. Recrutamos pessoas inteligentes, extremamente bem preparadas, bem
educadas, interessadas no trabalho e sem oportunidade.
Ana Amélia pondera que essa redução de cinco
milhões de pessoas com até 14 anos mostra que no futuro haverá uma queda da
oferta da força de trabalho:
- Em alguns setores já se sente falta de pessoas.
Esses que têm hoje até 14 anos vão entrar no mercado daqui a 10 anos. A força
de trabalho será mais envelhecida e terá cada vez menos jovens. E se está
entrando menos gente, quem está lá tem que ficar mais tempo.
Os dados de outras pesquisas mostram que o
desemprego é maior entre os mais jovens, e dentre eles é maior ainda entre as
mulheres e os negros. Nos dois casos, as estatísticas mostram discriminação.
Um país que terá menos jovens tem que educar
todos e não discriminar. O Brasil não pode se dar ao luxo de desperdiçar
jovens. Precisa de todos. A onda está passando.
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